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29 abril 2011

referências, maquete e planejamento geral

Sábado, 16/04, fizemos um encontro no JAMAC com a presença de moradores da comunidade (Bosco, Adenilson, Zezito, Marcela, Sérgio, Marcelo e outros jovens e crianças), Mônica Nador, Contrafilé, os arquitetos do EPA e os parceiros espanhois do grupo Basurama. O objetivo do encontro foi retomar as potências que temos em nossa "caixa de ferramentas" coletiva.

Depois das primeiras reuniões na comunidade - nas quais nos focamos em compartilhar referências de trabalhos artísticos que dialogam com nosso projeto, assim como em levantar sonhos e desejos para o Parque - entramos juntos em um ritmo de mutirão para a limpeza do espaço. Agora, algumas semanas depois, passamos a sentir novamente a necessidade de retomar os sentidos, os sonhos e nossas refências.



O Contrafilé abriu a rodada, retomando o projeto "A Rebelião das Crianças" como um importante sentido para o trabalho do Parque:





Balanço em viaduto, A Rebelião das Crianças, São Paulo, 2005

Peetssa apresentou os Habitáculos - trabalho da artista Floriana Breyer, do qual ele participou - como uma possível referência para a construção de um de nossos brinquedos: uma casinha na árvore.


Cássio separou algumas imagens de músicos e artistas que trabalham com instrumentos imprevistos e inventados, para contextualizar o instrumento coletivo que vem sendo criado com um grupo de jovens e crianças do Parque. Sérgio, um dos jovens que está participando do "laboratório de música" com o Cássio, se encarregou de explicar a todos a idéia que está sendo desenvolvida: construir uma espécie de "Ninho de Instrumentos" para ser tocado coletivamente, com bancos em volta.

projeto do Ninho de Instrumentos

 Órgão de madeira, instrumento gigante instalado em parque, Besançon, França

 Instrumento coletivo "Pindorama", Walter Smetak, 1973

  Instrumento coletivo "Pindorama", Walter Smetak, 1969

 Instrumento coletivo "Timpanos Grandes", Walter Smetak, 1970

 Instrumento "Pinton Cretino", Walter Smetak, 1976

Recolhereis estes sons que ouvistes aqui para juntar num lindo buquê de flores. Vamos realizar algo desconhecido. Os mais engenhosos, inventam um instrumento, outros emitem sons – cantando, assobiando, soprando com as mãos, batendo o ritmo com os pés. Fingem tocar até com uma lapiseira ou com os botões do paletó ou com os botões da televisão. Vós, verdadeiros atores, podeis gesticular, fazer caretas e até dançar. O palco e a platéia são vossos. Vamos ver, sentir e ouvir a vossa composição. Walter Smetak  

Mister e Angela (Basurama) apresentaram imagens do projeto Auto Parque de Diversões, em Lima, Peru - projeto que envolveu uma série de intervenções artísticas na transformação de um viaduto abandonado da cidade e também imagens de um projeto em Asuncíon (Paraguai):



Lima, Peru


Asunción, Paraguai

Mônica apresentou o projeto Paredes Pinturas, do JAMAC:
 
Pedro e Ana, do EPA, apresentaram alguns projetos de Urbanismo Participativo, os quais eles tem como referência, assim como apresentaram a maquete do Parque para Brincar e Pensar, na qual começamos a definir os brinquedos, espaços e propostas:


Instalações definidas nesta reunião:
Tratamento de esgoto
 Ponte de palets
Composteira
Horta suspensa
Jardinagem geral
Muro de contenção + arquibancada = espaço multiuso
Bancos
Paredes-pinturas
Bicicletas elétricas
Ninho de instrumentos
Varanda para árvore
Pneu voador
Trepa-trepa de pneus (Rambo)
 Corda bamba

23 março 2011

3ª reunião com a comunidade: referências, histórias e música

No sábado, dia 19 de março, fizemos o terceiro encontro na comunidade da Dona Carmem. Pela primeira vez montamos um espaço protegido da chuva no "fiozão" e pudemos trabalhar direto na área do Parque para Brincar e Pensar.

Mauro e a Rádio Poste, tocando "Por Todas as Partes" do CD Diáspora Afronética, Frente 3 de Fevereiro

 
 
 

Num primeiro momento do encontro, apresentamos algumas referências, organizadas a partir de subgrupos de trabalho do projeto: sustentabilidade/construções; jardins; música/comunicação.

 


Uma referência apresentada: o Balanço de bambú criado pelo Contrafilé no Parque do Ibirapuera, em 2008. Achávamos que apenas crianças seriam convocadas a brincar, porém nos surpreendemos ao ver filas de pessoas de todas as idades sendo formadas e todos brincando juntos. Poderíamos nos perguntar qual a diferença entre uma montanha-russa na qual pessoas de todas as idades brincam juntas e estes “brinquedos-obras” que aqui descrevemos e propomos construir. A principal diferença é o aproveitamento deste espaço de desejo e de diversão como espaço de troca, diálogo e invenção. É a expansão da situação, transformada em processo. Depois de desmontado, o brinquedo gigante se transformou em um galpão na Reserva Canhambora, Vale do Ribeira/SP.



Latovasos da Cibele e outras referências, como vasos de pneus, encontradas na internet:


Cássio apresenta a proposta de construção de brinquedos sonoros:




Para fechar o encontro, Joana faz uma leitura musicada do conto "A Repartição dos Pães", de Clarice Lispector:




A Repartição dos Pães
Clarice Lispector

Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo com quem não queríamos. Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu, eu queria tudo. E nós ali presos, como se nosso trem tivesse descarrilado e fôssemos obrigados a pousar entre estranhos. Ninguém ali me queria, eu não queria a ninguém. Quanto a meu sábado – que fora da janela se balançava em acácias e sombras – eu preferia, a gastá-lo mal, fechá-la na mão dura, onde eu o amarfanhava como a um lenço. À espera do almoço, bebíamos sem prazer, à saúde do ressentimento: amanhã já seria domingo. Não é com você que eu quero, dizia nosso olhar sem umidade, e soprávamos devagar a fumaça do cigarro seco. A avareza de não repartir o sábado,ia pouco a pouco roendo e avançando como ferrugem, até que qualquer alegria seria um insulto à alegria maior.

Só a dona da casa não parecia economizar o sábado para usá-lo numa quinta de noite. Ela, no entanto, cujo coração já conhecera outros sábados. Como pudera esquecer que se quer mais e mais? Não se impacientava sequer com o grupo heterogêneo, sonhador e resignado que na sua casa só esperava como pela hora do primeiro trem partir, qualquer trem – menos ficar naquela estação vazia, menos ter que refrear o cavalo que correria de coração batendo para outros, outros cavalos.

Passamos afinal à sala para um almoço que não tinha a bênção da fome. E foi quando surpreendidos deparamos com a mesa. Não podia ser para nós...

Era uma mesa para homens de boa-vontade. Quem seria o conviva realmente esperado e que não viera? Mas éramos nós mesmos. Então aquela mulher dava o melhor não importava a quem? E lavava contente os pés do primeiro estrangeiro. Constrangidos, olhávamos.

A mesa fora coberta por uma solene abundância. Sobre a toalha branca amontoavam-se espigas de trigo. E maçãs vermelhas, enormes cenouras amarelas, redondos tomates de pele quase estalando, chuchus de um verde líquido, abacaxis malignos na sua selvageria, laranjas alaranjadas e calmas, maxixes eriçados como porcos-espinhos, pepinos que se fechavam duros sobre a própria carne aquosa, pimentões ocos e avermelhados que ardiam nos olhos – tudo emaranhado em barbas e barbas úmidas de milho, ruivas como junto de uma boca. E os bagos de uva. As mais roxas das uvas pretas e que mal podiam esperar pelo instante de serem esmagadas. E não lhes importava esmagadas por quem. Os tomates eram redondos para ninguém: para o ar, para o redondo ar. Sábado era de quem viesse. E a laranja adoçaria a língua de quem primeiro chegasse.

Junto do prato de cada mal-convidado, a mulher que lavava pés de estranhos pusera – mesmo sem nos eleger, mesmo sem nos amar – um ramo de trigo ou um cacho de rabanetes ardentes ou uma talhada vermelha de melancia com seus alegres caroços. Tudo cortado pela acidez espanhola que se adivinhava nos limões verdes. Nas bilhas estava o leite, como se tivesse atravessado com as cabras o deserto dos penhascos. Vinho, quase negro de tão pisado, estremecia em vasilhas de barro. Tudo diante de nós. Tudo limpo do retorcido desejo humano. 'Tudo como é, não como quiséramos. Só existindo, e todo. Assim como existe um campo. Assim como as montanhas. Assim como homens e mulheres, e não nós, os ávidos. Assim como um sábado. Assim como apenas existe. Existe.

Em nome de nada, era hora de comer. Em nome de ninguém, era bom. Sem nenhum sonho. E nós pouco a pouco a par do dia, pouco a pouco anonimizados, crescendo, maiores, à altura da vida possível. Então, como fidalgos camponeses, aceitamos a mesa.

Não havia holocausto: aquilo tudo queria tanto ser comido quanto nós queríamos comê-lo. Nada guardando para o dia seguinte, ali mesmo ofereci o que eu sentia àquilo que me fazia sentir. Era um viver que eu não pagara de antemão com o sofrimento da espera, fome que nasce quando a boca já está perto da comida. Porque agora estávamos com fome, fome inteira que abrigava o todo e as migalhas. Quem bebia vinho, com os olhos tornava conta do leite. Quem lento bebeu o leite, sentiu o vinho que o outro bebia. Lá fora Deus nas acácias. Que existiam. Comíamos. Como quem dá água ao cavalo. A carne trinchada foi distribuída. A cordialidade era rude e rural. Ninguém falou mal de ninguém porque ninguém falou bem de ninguém. Era reunião de colheita, e fez-se trégua. Comíamos. Como uma horda de seres vivos, cobríamos gradualmente a terra. Ocupados como quem lavra a existência, e planta, e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem não engana o que come: comi aquela comida e não o seu nome. Nunca Deus foi tão tomado pelo que Ele é. A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era a mesa de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixão da piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida. Porque nem sempre posso ser a guarda de meu irmão, e não posso mais ser a minha guarda, ah não me quero mais. E não quero formar a vida porque a existência já existe. Existe como um chão onde nós todos avançamos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Nós somos fortes e nós comemos.

Pão é amor entre estranhos.

Texto extraído do livro "Laços de família", Ed. Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1991.

16 março 2011

2ª reunião com a comunidade: histórias, cantigas e proliferação

No último sábado fizemos o segundo encontro com a "comunidade da Dona Carmem". Estavam presentes: Contrafilé, Mauro, Marina, Cássio, Denilson e um grupo de mães e crianças da comunidade. 

Reconhecemos que estamos trabalhando prioritariamente com um "grupo de mães". Mãe no sentido amplo, com a "entidade mãe", figura cuidadora, que pensa e acolhe a criança. Criança que é reflexo da condição contemporânea da sociedade e tema de nossa investigação e ação. Criança que vem sendo abandonada em todos os sentidos, quando já não tem mais lugar nem espaço para ser criança, para ouvir histórias de seus ancestrais, para cantar cantigas, para brincar.  

Abrimos o encontro garantindo um lugar afetivo, de cantigas e memórias, criado por mães e crianças juntas. Depois desta roda de música, saimos juntos pela comunidade para colar os cartazes produzidos no encontro passado, como uma forma de divulgar o projeto do Parque para Brincar e Pensar para toda a comunidade. 

Cidade educadora = hoje, o que mais temos que aprender é a produzir espaço público (o mestre ignorante perguntaria: como podemos ensinar a produzir espaço se também não sabemos fazer isso?). Quando produzimos espaço coletivamente, este espaço é necessariamente público, porque surgiu do conflito/confronto entre uma diversidade de desejos e pessoas. 


20 fevereiro 2011

1ª reunião com a comunidade: apresentações e desejos

Neste sábado fizemos a 1ª reunião com a "comunidade da Dona Carmem" - que aconteceu dentro da Igreja. Estavam presentes: Contrafilé, Mauro (morador do Jd Miriam e parceiro do Jamac), Pedro (morador do Jd Miriam, arquiteto e integrante do grupo EPA) e Marina (estudante de arquitetura e integrante do grupo EPA), Macarrão (voluntário), Sueli, Maria José, Eliane, Idelcina, Maria, Adilza, Fran, Angelina, Marcela, Cida, Isabela, Ana Gleice, Vânia e várias crianças da comunidade.



Montamos um "ambiente alfabetizador" com imagens de trabalhos do Contrafilé, JAMAC e de outros grupos e artistas, como: Frente 3 de Fevereiro, Radek, Etecétera, Política do Impossível, Peetssa, Jailtão, Mariana Cavalcante. Também selecionamos referências de brinquedos e projetos que pensam a criança.



Para uma rodada de apresentações, sugerimos que cada um falasse seu nome e escolhesse uma das imagens expostas, que tivesse lhe chamado a atenção.




Sueli, Maria José, Idelcina, Maria e Pedro se apresentaram a partir desta ação:

 "Me roubaram o direito de ser criança" - performance do jovem Ederson, realizada no "Ato contra a tortura na Febem", elaborado pela AMAR em parceria com o Contrafilé em 2006. A performance foi inspirada na ação "Quem representa o povo?", da artista Mariana Cavalcante, que colaborou com o Ato.
Cida se apresentou a partir destas imagens, que a fizeram lembrar de quando vai para o interior e, ao ver sua filha Isabela brincando, reconhece nela uma criança diferente da criança que ela é na cidade:

A Rebelião das Crianças na Praça da Sé, Contrafilé, 2005
Acervo de referências do Contrafilé

Joana, Vânia e Rafael escolheram a intervenção "Um Modelo para uma Sociedade Qualitativa", realizada em 1968 em um museu da Dinamarca pelo artista Palle Nielsen, que estuda brincadeiras infantis:


Marina, Isabela e Macarrão se apresentaram através destes brinquedos:



 Acervo de referências do Contrafilé

Cibele se apresentou a partir deste cartaz, criado pelo Contrafilé:
Eliane se apresentou a partir da ação "1 minuto de silêncio", realizada pelo Contrafilé em 2004, contra o assassinato de moradores de rua:


Adilza, que participa de encontros do Movimento Negro, escolheu a bandeira "Brasil Negro Salve", da Frente 3 de Fevereiro. Mauro, a bandeira "Zumbi Somos Nós" na ocupação Prestes Maia, ação do mesmo grupo:



Angelina, que trabalha como carroceira, Marcela que vê seu sofrimento e Ana Gleice, se apresentaram a partir deste trabalho do JAMAC na praça do Jardim Miriam, 2006:


Fran escolheu uma "enigmática" (como ela disse) imagem do grupo Política do Impossível:

"Traga sua Luz", intervenção contra o processo de gentrificação do bairro da Luz/Cracolândia/SP, 2008

Peetssa escolheu uma intervenção que ele realizou:
Esta rodada gerou um bate papo sobre os trabalhos apresentados, suas urgências, contextos, grupos, formas, símbolos. A partir daí, começamos a mergulhar em nossas memórias de infância - compartilhamos brincadeiras de antigamente: "Estrela Nova Sela", "Porta Bandeira", "Pau de Sebo", "Campinho"; brincadeiras de hoje: "Pancadão", "Polícia e Ladrão" e lembramos como eram os espaços que contornavam as brincadeiras do passado, o que tinham de mágico, protegido, infantil.
Em um terceiro momento, cada um foi convidado à registrar seus desejos para o Parque para Brincar e Pensar, que será construído coletivamente no terreno desapropriado pela Eletropaulo para a instalação de torres de transmissão de energia.




E surgiu a seguinte cartografia de desejos para este espaço:






















 Fernanda mostrando os balanços do seu desejo